RELATO DO DEBATE DO SEMINÁRIO SOCIEDADE E VIOLÊNCIA-
"BLITZ" - MÓDULO III:FAMÍLIA E MEDO
25 de maio de 2007
Um debate dinâmico, emocionado, próximo, intenso, com cumplicidade para se viver melhor marca o terceiro módulo do seminário sociedade e violência. Envolvidos pelo clima da peça, os debatedores que participaram desta edição do seminário, referiram o quanto se faz importante encontros como este para levar à reflexão temas como o apresentado.
Próximos à platéia, assim como os protagonistas da peça, os debatedores colocaram suas impressões do que perceberam na pele deste casal.
Dr. Roberto Gomes, psicanalista, iniciou referindo a diferença que percebeu entre ler o texto e assistir à encenação. Intelectualizou inicialmente, assim como se viu envolvido e imerso na realidade de um casal no qual percebe a violência nascendo e acontecendo. Refere o quanto a violência explode numa família, uma vez que estes personagens sofreram uma violência pessoal. Abre o debate referindo o quanto é intrínseca a relação entre medo e violência: onde existir um, o aumento do outro é direto. Considera também que há um eixo principal nesta relação, sendo este o preconceito e que este sentimento é a essência do ódio. Citando o autor, acredita que o texto pressupõe diferenças, lembrando que o autor tenta induzir sobre isso já na escolha do nome do Cabo Rosinha. Assim como lembra também que o ofício da Heloísa é o pão, alimento que "está no cerne" da humanidade e o quanto este alimento é relacionado à generosidade (Pão e água não se nega a ninguém), portanto ligado diretamente às relações humanas. E disso, refere a pouca tolerância nas relações e por isso a violência: ausência de conversa, de amorosidade, leva ao aumento da violência. Refere também a aprendizagem da violência, questiona o quanto a cultura influencia nossa identidade neste sentido.
Dra. Olga Falceto, psiquiatra e terapeuta de família, fala do quanto se surpreendeu com a emoção trazida pelo espetáculo, favorecendo trazer a violência para tão perto de modo a refletir sobre ela. Lembra que fazemos parte da violência e que ela faz parte de nós e questiona o quanto e o que podemos fazer a cada dia para a sociedade ser mais pacífica. Refere que desde as Torres Gêmeas, que depois de 2001, há uma mudança muito grande, que muito do mundo "desandou". Mas que ainda acredita em reconciliações. Lembra do que sentia vendo os personagens e seus dramas, salientando que o cabo Rosinha "vive marcado por seus crimes".
A psicóloga e terapeuta de família Marli Olina refere que sua presença no debate foi sentida como um desafio para falar sobre violência e lembra o quanto se evita este assunto, o quanto se olha para o lado. Afirma que aceitou o convite neste sentido, para "não fugir " e, acima de tudo, não banalizar esta realidade. Salienta que em termos de sociedade, tem sido por demais banalizada a violência. Logo, é necessário encarar. Fala também sobre a aprendizagem da violência. Lembra uma das falas da personagem Heloísa: "De onde vem isso?" Acredita que as pessoa ficam presas, que criam bloqueios . Refere que a violência nos aprisiona, paralisa. Fala das muitas projeções que os personagens fazem um ao outro. Cita: "Tua culpa é a minha salvação.", como modo das pessoas se defenderem do que as assustam. Que percebe na peça o silêncio, a omissão, o preconceito como formas de expressão da violência.
Dr. Roberto fala sobre outra percepção que lhe chamou a atenção: a força do sangue, que acredita ter também uma relação direta e forte com a violência, assim como significando a possibilidade de continuidade na pele do outro (ou na lama, como lembro a dra. Olga). Segundo ele, o sangue impregna. Assim como faz referência aos simbolismos possíveis que os protagonistas propõem na encenação, citando a mala utilizada como exemplo: é casa, proteção, berço, caixão. Neste sentido, entusiasma-se e refere ter percebido no espetáculo um "ar shakesperiano". Fala sobre as perdas/lutos que atormentam este casal: luto trazido pela natureza e um luto que leva a uma defesa própria. Acredita que, no caso desta família, a perda do filho está pesando mais na violência que aparece. Cita um estudo que realizou sobre a violência através das máscaras: os curandeiros, os feiticeiros, máscaras mitológicas, que indicam, através de suas expressões, muito da violência e o quanto esta barra as pessoas em suas ações.
Também presente na platéia e participando das reflexões, Dr. Ovídio Waldemar, psicanalista, que lembra o quanto o espetáculo aborda o contexto social atual no Brasil. Exemplifica citando o cabo Rosinha ora como bandido, ora como herói. Revela uma alternância em seu papel, tal como se observa atualmente, sobretudo com figuras públicas da política e empresários. Refere o grande dilaceramento social atual. Fala também da dependência com que os protagonistas da peça estão vivendo em relação ao outro. Assim, aprisionados pela dependência, a saída é a violência. Mais uma vez, o ser humano impedido de se relacionar de modo equilibrado, defende-se violentamente. Também é citado no debate o quanto a desigualdade é provocadora da violência. A saída é a "cicatrização das feridas sociais e emocionais que as pessoas carregam". Dr. Ovídio cita que a peça mostra a "sangria da sociedade". Percebe na encenação um agito significativo, o que muitas vezes pode dificultar o pensar do expectador. Sente falta da percepção do drama existencial expresso através da introspecção.
Uma participante, sra. Rejane Passuelo, refere ter percebido quase um estereótipo do drama humano expresso no espetáculo. Acredita que a peça fala o tempo todo de gente, pois sofrem e amam. Lembra também que violência somente os seres humanos produzem. Tem a ver com a aceitação de si mesmo. Quando transcendemos o amor, aí sim, "vamos para a rua", ou seja, mostramos quem somos realmente.
Outro participante, sr. Dênis de Souza, fala também a respeito do quanto somos responsáveis pela violência que existe, assim como o medo pode criar condições de emergência na vida das pessoas. Lembra outro país que visitou e percebeu o quanto as pessoas andam pelas ruas tarde da noite e não percebe violência. Acredita que justamente por andarem às ruas é que não há violência. Há movimento. Uma vez o esvaziamento das ruas, instala-se a possibilidade de violência. Com medo e receio, favoreço a violência. Dra. Olga lembra de famílias que sentam às portas de suas casas e o quanto isso atualmente é difícil ser percebido. Possivelmente, estes "enfrentamentos" são fundamentais no combate à violência: retornar às ruas pode ser uma das saídas contra este problema. Também é lembrado o que nos leva a enfrentar o medo: uma vez existir a necessidade de liberdade e relacionamento, enfrenta-se o aprisionamento com que se passa a viver pela pressão do medo.
Participando mais uma vez do Seminário, o Major Fábio Fernandes, da Brigada Militar, reforça o quanto percebe real a encenação apresentada. Retoma o quanto o brigadiano ainda é estereotipado, possível de atos de violência. Na realidade, não é treinado para matar como muitos ainda acreditam. Refere que na peça, o cabo só revela suas angústias quando dorme. Diz que o brigadiano tem uma representatividade social e que carrega este peso e que esta ainda é muito carregada da possibilidade de violência, antes da proteção. Lembra também manifestações sobre o quanto a pena de morte condena as pessoas, quando há a necessidade de se discutir os direitos humanos de modo integral e não paliativo. Cita a dissertação de mestrado que assistiu sobre o grande número de doenças ligadas ao álcool e às drogas em grupos da guarda de uma instituição e o quanto a academia, com ou sem medo, deve se apropriar destes problemas e ainda não o faz integralmente.
Citando Dalai Lama, o ator José Benetti lembra que o ser humano é naturalmente amoroso e quando falha nestas tentativas, quando fica agressivo, é por engano. Muitas das notícias de violência que envolvem policiais mostram o quanto da inversão de papéis está presente. O quanto de abuso de poder é evidenciado. Questiona se na instrução destes profissionais é que está a saída para os problemas que cita.
Outra participante, dra. Flávia, psiquiatra, cita ser filha de policial militar. Refere o quanto viu no espetáculo as preocupações dos personagens como muito reais. "Visceral", ressaltou.
O diretor de teatro e psicanalista, Júlio Conte, diz o quanto se emocionou com o espetáculo e assinala dois pontos, além dos que foram citados: a dignidade das pessoas representadas nos personagens, o quanto estas tentam se sustentar na vida, o quanto lutam para não se perderem e se abandonarem; o outro ponto é sobre o preconceito em relação ao brigadiano e o quanto de arrogância está embutido neste sentimento (o preconceito). Acredita que a arrogância leva à violência, assim como acredita que é possível reverter tal problema através da busca pela dignidade. É comentado também sobre o aumento de grades nas residências e o quanto simbolicamente estas grades evidenciam nossos medos, assim como nossa possível arrogância.
Outro participante diz que se surpreendeu com o drama apresentado e viu um "cara" carregado de dramas que, somente ao se abrir, ao enfrentá-los, a tensão se acalmou. Ou seja, a necessidade das pessoas se envolverem de fato no que vivem, enfrentar suas dificuldades para resolvê-las.
Dra. Olga se diz ainda esperançosa e, reforçando a colocação sobre o Dalai Lama, acredita que temos o potencial para sermos bons. Diz que na peça vê um brigadiano pedindo ajuda com o sofrimento evidenciado e percebe nessa atitude, humanidade em uma profissão tão carregada de estereótipos agressivos e violentos. A realização de encontros como este, criar espaços de conversa, é uma saída no enfrentamento de problemas como os citados.
Dr. Roberto afirma também que o medo "encroa" na personalidade se durar muito. Cita Jean Jacques Rousseau sobre sermos bons, mas ainda acredita que é necessário um grande esforço para se conseguir isso. Diz que há um equilíbrio bastante sutil entre o amor e a violência. Afirma que a essência da violência desorganiza a mente, daí a agressividade em várias formas de manifestação. Lembra que o ser humano é o ser vivo capaz de sentir remorso e aqui acredita estar a saída contra a violência também. O sentimento de luto pode ajudar a ser menos violento. Acredita que isso está na peça também, relembrando a mala representando um caixão: quando se suporta o luto, melhoram-se as perversões.
A psicóloga Marli diz que quando o processo de violência é externalizado, assumido, tende a aliviar a dor que a pessoa carrega. Lembra também que os outros têm o poder que eu permito que tenham. Ou seja, somos ativos nesta relação com os demais. Abrindo mão de nossos direitos, estaremos submetidos à força alheia.
Sr. Dênis acredita que na sociedade ainda tudo conspira a favor da violência. Afirma sobre o perigo do senso comum e o quanto este muitas vezes é uma "arma não letal", mas de perigosa força nas relações humanas. Cita também que acredita que a solução está na formação do indivíduo.
Retomando o citado sobre a arrogância, Dr.Roberto lembra que este sentimento é "a mãe" da covardia. Investir na coragem favorece o enfrentamento. Lembra outro elemento presente na peça: a arma. Tal instrumento controla o medo. Impõe-se respeito com a arma. Citando uma obra de Dino Buzatti, diz que a única batalha que enfrentamos a vida toda é contra a morte. Permanecer na dor, compromete nossa evolução. Reside nisso, o motivo para enfrentar a violência.
Uma das últimas pessoas a falar foi a sra. Waleska Pereira, enfermeira, apresenta-se também como esposa de policial militar. Diz que é muito bem retratado o dilema da "mulher de brigadiano". O marido não falando, como fica o mundo dela? Revela na peça a expectativa da mulher que espera o marido voltar de um trabalho carregado de pressão e possível violência. Acredita também que uma das saídas nesta batalha contra a violência é levar a discussão da saúde para as escolas de polícia.
Ultrapassando o tempo previsto para o debate, encaminhamos o final na certeza da importância que o momento congregou, assim como da necessidade de dar seqüência ao projeto.
Aproveitamos para agradecer aos debatedores Psicóloga Marli Olina, Dra. Olga Falceto e Dr. Roberto Gomes a contribuição intensa que deram, assim como pela espontaneidade, interesse e confiança que demonstraram em relação ao nosso trabalho. Agradecemos também à Cia Stravaganza, às pessoas que estavam na platéia e no Seminário e também a Cristiane Bilhalva pelo apoio e amizade.

